Porto Alegre Antiga
Castigo de 250 espadadas no coração de Porto Alegre
Um episódio brutal de repressão militar ocorrido em 1839 revela um dos capítulos mais violentos e esquecidos do antigo Largo do Paraíso, atual Praça XV de Novembro.
O ano era 1839, a cidade estava citiada pelos Farrapos

Em meio ao cerco farroupilha que sufocava Porto Alegre no ano de 1839, um episódio de violência extrema marcou para sempre a história do antigo Largo do Paraíso.
O local, que hoje corresponde à região da Praça XV de Novembro, no Centro Histórico da capital gaúcha, foi palco de um motim militar reprimido com brutalidade pública. Alguns soldados receberam entre 100 e 250 golpes de espada diante da cidade, ao som de uma banda militar.
O relato aparece no livro A Velha Porto Alegre, do historiador Sérgio da Costa Franco, uma das principais referências sobre a memória urbana da capital.
Segundo Franco, a cidade vivia um dos períodos mais tensos da Revolução Farroupilha. Porto Alegre estava sitiada pela terceira vez pelos farroupilhas, enquanto batalhões legalistas mantinham o controle da capital. Entre eles estava o 2º Batalhão de Caçadores, instalado na então Rua do Paraíso, diante do largo que dava nome à região.
Em determinado momento, soldados do batalhão se revoltaram contra a substituição de um comandante. A resposta foi imediata. Tropas de infantaria, cavalaria, artilharia e até o corpo de alemães de São Leopoldo cercaram o quartel rebelado. Após a rendição, os líderes do motim foram identificados e castigados publicamente com “pranchaços de espada”, punição militar extremamente violenta aplicada como demonstração de autoridade e disciplina.

A pena variava conforme o grau de culpa atribuído a cada homem. Alguns receberam cem golpes. Outros chegaram a duzentos e cinquenta.
A cena teria ocorrido diante de uma Porto Alegre ainda colonial, de ruas estreitas, chão irregular e atmosfera militarizada pelo conflito farroupilha.

O antigo Largo do Paraíso possuía importância estratégica naquele período. A região ficava próxima dos limites urbanos da cidade fortificada e servia como ponto de circulação militar e ligação entre áreas centrais da antiga vila. Com o crescimento urbano e as sucessivas reformas do Centro Histórico ao longo do século XIX, o espaço acabou sendo absorvido pela malha urbana da atual Praça XV de Novembro e arredores da Rua Marechal Floriano.
O nome “Paraíso” provavelmente estava ligado à tradição portuguesa de atribuir nomes religiosos, simbólicos ou idealizados aos espaços urbanos.
Em Porto Alegre antiga, diversos logradouros possuíam denominações ligadas à paisagem, à religiosidade popular ou a referências afetivas da população. O largo desapareceu oficialmente da cartografia moderna, mas segue sobrevivendo em documentos históricos, mapas antigos e relatos memorialistas.
Atualmente, milhares de pessoas atravessam diariamente aquela região sem imaginar que ali ocorreu uma das punições militares mais violentas registradas na história da cidade. No mesmo solo onde atualmente circulam ônibus, vendedores ambulantes, trabalhadores e turistas, homens foram alinhados para receber centenas de golpes de espada diante de uma população aterrorizada.

Um episódio de indisciplina militar
Aconteceu, no Largo do Paraíso, um motim militar. A cidade estava sitiada pelos farroupilhas pela terceira vez. Corria o ano de 1839. E entre os muitos batalhões que garantiam a posse da capital pelos legalistas, estava o 2º de Caçadores, com seu quartel na Rua do Paraíso, defronte ao Largo. Pelas tantas, a soldadesca amotinou-se contra a substituição de um comandante, o que determinou imediata e enérgica repressão. Quatro batalhões de infantaria, armados e municiados, o corpo de alemães (de São Leopoldo), um esquadrão de cavalaria e duas peças de artilharia de campanha cercaram a praça e o quartel rebelado. Compareceram o presidente da Província, o comandante da guarnição, mais os comandantes de brigadas e de corpos. Intimou-se o batalhão insubordinado a que deixasse as armas e saísse para fora do quartel. Os amotinados obedeceram e se renderam. Descobriram-se os cabeças do motim, 14 ou 16 homens, segundo um cronista da época, que foram imediatamente castigados com pranchaços de espada: de 100 a 250 pranchadas segundo o grau da culpa e ao som da banda de música…
FRANCO, Sérgio da Costa. A Velha Porto Alegre. Porto Alegre, p. 18.










