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As caminhadas macabras no Centro Histórico de Porto Alegre
O preço de ser pioneiro, os conflitos da autoria e a ética no turismo cultural de Porto Alegre.
Existe espaço para todos. Sempre existiu. O que não pode deixar de existir é respeito, ética e reconhecimento por quem ajudou a construir o caminho que hoje outros percorrem com facilidade.
Desde 2011 desenvolvo um roteiro autoral de caminhadas sobre as histórias sombrias e invisibilizadas de Porto Alegre. Um trabalho construído com pesquisa, sensibilidade artística, curadoria narrativa e presença constante nas ruas. Não se trata da posse das histórias, pois elas pertencem à cidade e à sua memória coletiva. O que reivindico é algo muito claro. A autoria do roteiro, do percurso, da narrativa construída, da estética e da forma como essas histórias foram organizadas dentro de uma experiência cultural.
Ser pioneiro nunca foi confortável. Quando comecei, não existia aceitação. Existia desconfiança. Existia rejeição. Existia resistência cultural por tratar temas ligados à morte, memória, religiosidade e espiritualidade. Existia também o risco real das ruas, a dificuldade de circulação em áreas consideradas pouco atrativas e a necessidade de construir confiança com a comunidade local.

Esse caminho não foi aberto apenas com criatividade. Foi aberto com enfrentamento.
Já sofri processo extrajudicial quando instituições religiosas não aceitaram ver seus espaços associados à memória histórica abordada nos passeios. Já enfrentei ameaças, hostilidade nas ruas e situações de extrema tensão. Em nenhum desses momentos havia interessados em dividir essa responsabilidade. Eu estava sozinho defendendo a legitimidade cultural de um projeto que hoje muitos consideram natural.
Natural hoje. Inimaginável quando começou.
Esse é o ponto que precisa ser compreendido. O cenário atual não surgiu espontaneamente. Ele foi construído com insistência, exposição pessoal e defesa constante da importância cultural desse tipo de atividade.
Por isso, quando surgem iniciativas que reproduzem exatamente o mesmo trajeto, a mesma quantidade de histórias, os mesmos pontos e até propostas narrativas semelhantes, é legítimo questionar. Porto Alegre possui centenas de histórias. Inúmeros percursos possíveis. Infinitas combinações narrativas. Quando as escolhas coincidem de forma tão precisa, a dúvida não é um exagero. É uma consequência natural.
Nunca foi minha posição desencorajar ninguém. Pelo contrário. Sempre defendi que mais iniciativas culturais fortalecem a cidade. O que defendo é algo simples e básico dentro de qualquer meio artístico sério. Originalidade. Pesquisa. Diferenciação. Respeito entre quem trabalha no mesmo campo.
O que causa desconforto não é a existência de outros projetos. É a ausência de reconhecimento e diálogo quando claramente existe intersecção entre propostas. Em qualquer ambiente cultural maduro existe o princípio da boa vizinhança profissional. Não se trata de pedir autorização. Trata se de comunicar, reconhecer trajetórias e evitar conflitos desnecessários.

Isso é prática comum entre artistas. Sempre foi.
Outro ponto importante precisa ser esclarecido. Essa discussão não tem relação com público ou concorrência comercial. Meu trabalho possui reconhecimento consolidado e um público fiel construído ao longo dos anos. Inclusive são essas próprias pessoas que frequentemente me alertam quando percebem reproduções evidentes do meu roteiro.
O debate nunca foi sobre mercado. Sempre foi sobre ética profissional.
Também é importante entender que um roteiro autoral não se compara a rotas turísticas institucionais criadas por órgãos públicos. Existe uma diferença profunda entre um circuito oficial e um projeto artístico independente baseado em narrativa, dramaturgia urbana, mapeamento simbólico e construção de experiência cultural.
Muitos dos pontos hoje considerados interessantes dentro desses roteiros não eram sequer visitados antes do meu trabalho começar a levá los ao público. Alguns locais eram evitados por insegurança, desconhecimento ou falta de interesse cultural. Foi a construção narrativa que transformou esses espaços em pontos de interesse.
Isso também é autoria cultural.
Ser pioneiro significa exatamente isso. Fazer quando ninguém quer fazer. Insistir quando ninguém acredita. Defender quando ninguém apoia. E continuar mesmo assim.
Por isso, antes de iniciar qualquer projeto semelhante, existe uma responsabilidade básica. Pesquisar quem já está atuando. Entender quais caminhos já foram abertos. Reconhecer quais resistências já foram enfrentadas. Compreender quais esforços ajudaram a legitimar esse espaço cultural.
Nada disso impede novas iniciativas. Apenas qualifica.
Reafirmo algo que sempre defendi. Há espaço para todos. O que não pode existir é a naturalização da apropriação silenciosa, sem diálogo, sem reconhecimento e sem qualquer forma de respeito profissional.
Minha posição continua a mesma. Desejo sinceramente que todos os projetos culturais tenham sucesso. Continuo aberto ao diálogo. Sempre estive. O que peço é algo simples. Respeito mútuo.
Porque abrir caminho também significa, muitas vezes, ter que defendê lo continuamente. E quem chegou primeiro nessa trincheira cultural sabe exatamente o preço que isso teve.
A história de quem abriu o caminho das caminhadas sombrias em Porto Alegre e hoje luta pelo respeito à autoria.
André Hernandez e Porto Alegre Mal Assombrada
A história de um artista que transformou a memória sombria da cidade em patrimônio cultural vivo.

Alguns artistas fazem música. Outros escrevem livros. Outros abrem cafés. André Hernandez fez algo mais raro. Ele transformou a própria cidade em obra.
Pesquisador da memória obscura de Porto Alegre, músico, escritor, empreendedor cultural e criador do projeto Porto Alegre Mal Assombrada, Hernandez construiu ao longo de mais de uma década um trabalho que hoje se tornou referência quando o assunto é turismo histórico alternativo na capital gaúcha.
Sua trajetória não nasce apenas da arte. Nasce da insistência.
O artista que transformou pesquisa em experiência cultural
Antes de existir qualquer popularização de roteiros sombrios pela cidade, Hernandez já caminhava pelo Centro Histórico pesquisando arquivos, cruzando relatos, conectando memória oral, literatura, jornalismo antigo e narrativas esquecidas.
O que começou como pesquisa pessoal se transformou em experiência cultural guiada, unindo história, performance narrativa e dramaturgia urbana. A proposta nunca foi apenas contar histórias. Foi fazer as pessoas sentirem a cidade.
O Porto Alegre Mal Assombrada nasceu desse impulso. Não como produto turístico tradicional, mas como um projeto autoral conduzido por um artista que também é compositor e contador de histórias.
O roteiro não surgiu de um catálogo turístico. Surgiu de pesquisa, sensibilidade e construção narrativa.
A estrada antes do reconhecimento
Hoje o projeto recebe atenção, público e interesse crescente. Mas o caminho até aqui foi marcado por resistência.
Hernandez enfrentou rejeição inicial por tratar temas considerados delicados. Memória da morte. Crimes históricos. Espiritualidade. Religião. Lendas urbanas. Assuntos que durante muito tempo foram vistos com desconfiança dentro de uma cultura acostumada a narrativas mais convencionais.
Houve conflitos. Questionamentos. Notificações extrajudiciais. Pressões por associar espaços históricos a narrativas sombrias. Momentos em que ele precisou defender sozinho a legitimidade cultural do próprio trabalho.
Hoje esse tipo de roteiro é visto como natural. Mas houve um tempo em que não era.
Esse tempo foi quando ele começou.

O músico que também escreveu sua história na cultura gaúcha
Paralelamente ao trabalho como pesquisador cultural, Hernandez construiu uma trajetória consistente na música como vocalista da banda Lítera, grupo reconhecido dentro da cena autoral gaúcha e premiado ao longo de sua atividade.
A banda conquistou reconhecimento de público, prêmios e indicações importantes, consolidando sua presença dentro da produção independente do Rio Grande do Sul. Sua atuação como compositor sempre dialogou com temas existenciais, psicológicos e simbólicos, algo que também aparece na construção narrativa do Porto Alegre Mal Assombrada.
Em Hernandez, músico e pesquisador são a mesma pessoa.
A estética é a mesma. A busca por significado também.
O Café Mal Assombrado e a ocupação cultural do centro
Essa mesma visão levou à criação do Café Mal Assombrado, um espaço cultural temático instalado junto a histórica Rua do Arvoredo e agora se tornou permissionário do Viaduto Otávio Rocha, um dos marcos arquitetônicos mais importantes da cidade. Hernandez não criou apenas um negócio. Criou um ponto de encontro entre história, arte, gastronomia e identidade urbana. Como sócio permissionário do espaço, ele passou a integrar também o movimento de revitalização cultural do centro histórico.
Seu trabalho dialoga diretamente com a ideia de ocupação cultural dos espaços públicos através da arte.
Gastronomia, cultura e reconhecimento
Sua atuação cultural também alcançou a gastronomia. Representando o Rio Grande do Sul em competições relevantes do setor gastronômico na América Latina, Hernandez levou sua proposta temática também para esse campo, mostrando como narrativa cultural pode se transformar em experiência sensorial completa.
Esse tipo de atuação multidisciplinar revela uma característica central da sua trajetória.
Ele não trabalha apenas com arte. Ele constrói ecossistemas culturais.
O escritor da cidade invisível
Como autor, Hernandez também se dedica a registrar as histórias que pesquisa, organizando material que conecta memória urbana, espiritualidade, história social e percepção simbólica da cidade.
Seu trabalho como escritor reforça o papel de guardião de uma Porto Alegre invisível. Aquela que não aparece nos cartões postais, mas que sobrevive nos relatos, nos arquivos e na imaginação coletiva.
O preço do pioneirismo
Talvez o aspecto menos visível da sua trajetória seja justamente o mais importante.
Ser pioneiro significa fazer antes de existir público. Antes de existir aceitação. Antes de existir mercado. Significa assumir riscos que outros só percebem depois que tudo parece consolidado.
O Porto Alegre Mal Assombrada ajudou a mostrar que existia interesse por esse tipo de narrativa. Ajudou a abrir espaço. Ajudou a formar público. Ajudou a legitimar um segmento cultural.
E como acontece com todo pioneirismo cultural, depois que o caminho é aberto, outros naturalmente começam a percorrê lo.
A única reivindicação constante de Hernandez nunca foi exclusividade.
Sempre foi respeito.

Um nome ligado à memória cultural da cidade
Hoje, o trabalho de André Hernandez representa mais do que um roteiro cultural. Representa uma forma de olhar Porto Alegre.
Uma forma que valoriza a memória. Que enfrenta o esquecimento. Que transforma história em experiência viva.
Sua contribuição está em mostrar que a cidade não é feita apenas de prédios e avenidas. É feita de narrativas. De fantasmas históricos. De lembranças difíceis. De histórias que precisam ser contadas para que a identidade cultural permaneça viva.

Um compromisso que continua
Mais do que um projeto, Porto Alegre Mal Assombrada se tornou um compromisso pessoal com a memória cultural da cidade.
Hernandez continua pesquisando, escrevendo, compondo, guiando e criando. Não apenas como artista, mas como alguém que decidiu dedicar sua trajetória a manter viva uma dimensão pouco explorada da identidade porto alegrense.
Seu trabalho prova uma coisa simples.
Cidades precisam de quem conte suas histórias.
E algumas dessas histórias só sobrevivem porque alguém decidiu não deixar que fossem esquecidas.










