Blog
As Canções que Inventaram Porto Alegre
Uma investigação sobre a trilha sonora sentimental da capital gaúcha.

Porto Alegre – Cidade Sorriso foi lançado em 11 de outubro de 1964 pela Som Livre como parte do álbum Férias Em Porto Alegre – EP
Por décadas, Porto Alegre foi cantada como uma cidade elegante, melancólica, moderna e ao mesmo tempo profundamente nostálgica. Muito antes da explosão do rock gaúcho dos anos 1980, compositores já transformavam ruas, praças, cafés, bondes e paisagens da capital em música. Algumas dessas canções desapareceram da memória coletiva.
Ao mergulhar em antigos discos, gravações esquecidas, capas de compactos e arquivos históricos, torna-se possível perceber que a música ajudou a construir um imaginário específico sobre Porto Alegre. Não apenas uma cidade física, mas uma ideia sentimental da cidade.
Entre todas essas obras, poucas são tão simbólicas quanto “Porto Alegre Cidade Sorriso”, composição de Alberto do Canto lançada no histórico compacto Férias em Porto Alegre, de 1964.
O disco que transformou Porto Alegre em cartão-postal sonoro
Lançado pela gravadora RGE em 1964, Férias em Porto Alegre reuniu composições de Alberto do Canto interpretadas por Marcos Miranda, com arranjos do maestro e pianista Manfredo Fest. Hoje, o disco é considerado uma raridade cultuada por colecionadores e pesquisadores da memória cultural gaúcha.
A capa do álbum se tornou praticamente um documento histórico da cidade. Nela aparece uma Porto Alegre otimista, sofisticada e moderna. A antiga Praça XV surge como cenário principal, com a tradicional fonte em destaque e ao fundo o edifício Phenix, símbolo do desenvolvimento urbano da época. Sobre a paisagem, um casal ilustrado em estética típica dos anos 1960 reforça a ideia de uma capital elegante, turística e cosmopolita.

Mais do que um disco, Férias em Porto Alegre funcionava quase como propaganda afetiva da cidade.
As músicas descreviam uma capital tranquila, refinada e culturalmente vibrante. Uma cidade onde a Rua da Praia era palco do footing elegante, onde o Guaíba servia como cenário romântico e onde o centro histórico ainda mantinha forte influência arquitetônica europeia.
Alberto do Canto e a criação musical da “Cidade Sorriso”
Durante minha pesquisa sobre músicas feitas para Porto Alegre, uma figura apareceu repetidamente como peça central dessa construção sentimental da cidade. Alberto do Canto.
Pianista, compositor e cronista urbano, ele talvez tenha sido o artista que melhor traduziu Porto Alegre em forma de música. Segundo reportagem especial do Jornal do Comércio, Alberto do Canto compôs mais de 200 músicas e grande parte delas dedicada diretamente à capital gaúcha.
Suas obras falavam sobre ruas, praças, bairros e hábitos urbanos. Entre elas estavam “Rua da Praia”, “Praça 15”, “Cidade Baixa”, “Parque da Redenção”, “Rio Guaíba”, “Voluntários da Pátria” e “Porto Alegre Cidade Sorriso”.
Ao ler relatos sobre sua trajetória, fica evidente que Alberto do Canto não escrevia apenas sobre lugares. Ele escrevia atmosferas.

Suas músicas registravam uma Porto Alegre viva culturalmente, com cafés movimentados, cinemas de rua, livrarias, encontros boêmios e uma relação muito mais íntima entre as pessoas e o centro da cidade.
Na imagem a seguir, o tradicional “footing”, expressão derivada do inglês ligada ao ato de caminhar, era um costume bastante comum nas cidades do interior e também nos centros urbanos de outras épocas. As jovens escolhiam cuidadosamente seus vestidos e percorriam ruas e praças enquanto os rapazes, igualmente elegantes, observavam discretamente o desfile social que transformava o passeio em um verdadeiro ritual de encontro e aparência.

A expressão “Cidade Sorriso”, tão presente na época, ajudou a consolidar uma imagem afetiva da capital. Uma cidade acolhedora, sofisticada e culturalmente pulsante.
A Porto Alegre perdida dentro das canções
Existe algo profundamente melancólico ao ouvir essas músicas hoje.
Boa parte dos cenários cantados por Alberto do Canto desapareceu ou foi drasticamente transformada. Muitos prédios históricos foram demolidos, cinemas fecharam, cafés sumiram e o próprio ritmo urbano mudou completamente.
Por isso essas composições hoje funcionam quase como arquivos emocionais da cidade.

Ao escutá-las, é possível imaginar bondes cruzando o centro histórico, pessoas caminhando lentamente pela Rua da Praia, vitrines antigas iluminadas à noite e uma Porto Alegre muito diferente da atual.
Talvez seja justamente isso que torna essas músicas tão fascinantes. Elas parecem abrir pequenas frestas temporais.
Teixeirinha e a Porto Alegre popular
Se Alberto do Canto representava uma Porto Alegre elegante e urbana, Teixeirinha apresentou outra perspectiva da capital. Na década de 1970, sua música “Porto Alegre” também utilizaria a expressão “cidade sorriso”, porém sob uma ótica muito mais popular e sentimental.
Enquanto Alberto do Canto dialogava com salões culturais e a elite urbana do centro histórico, Teixeirinha aproximava Porto Alegre do imaginário afetivo popular do interior gaúcho.
Duas Porto Alegres diferentes coexistiam musicalmente.
O rock gaúcho e a transformação da cidade
A partir dos anos 1980, a representação musical de Porto Alegre muda drasticamente.
Bandas como Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós e Os Replicantes passam a retratar uma cidade mais urbana, existencial, crítica e melancólica. A antiga “Cidade Sorriso” começa lentamente a desaparecer do imaginário musical.
No lugar surge uma capital mais fria, acelerada e marcada pelas contradições metropolitanas.
Essa transformação acompanha a própria mudança física da cidade.
Apneia e minha contribuição para essa trilha sonora da cidade
Durante toda essa pesquisa sobre as canções feitas para Porto Alegre, uma percepção se tornou inevitável. Cada geração parece tentar registrar musicalmente a cidade que viveu.
Algumas obras exaltam uma capital elegante e luminosa. Outras revelam decadência urbana, memória, melancolia e pertencimento. Mas todas carregam uma tentativa de eternizar emocionalmente Porto Alegre.
Foi justamente dentro desse mergulho em discos antigos, composições esquecidas e narrativas musicais da capital que nasceu parte da inspiração para Apneia, meu álbum recém-lançado.
Ao revisitar obras como Férias em Porto Alegre e tantas outras canções que ajudaram a construir a identidade sentimental da cidade, comecei a perceber como Porto Alegre sempre esteve presente não apenas na arquitetura, mas também na atmosfera emocional da música produzida aqui.
Apneia surge também desse sentimento.
De uma cidade observada entre sombras urbanas, prédios antigos, memórias apagadas, noites silenciosas e experiências profundamente ligadas ao espaço porto-alegrense.

Talvez essa seja minha contribuição para essa longa trilha sonora construída sobre Porto Alegre ao longo das décadas. Uma tentativa de transformar em música as sensações que essa cidade provoca em quem realmente caminha por ela, observa suas marcas e investiga suas histórias.
Porque Porto Alegre sempre inspirou seus artistas. E talvez uma das formas mais intensas de amar essa cidade seja justamente continuar cantando sobre ela.









