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André Hernandez e Porto Alegre Mal Assombrada
A história de um artista que transformou a memória sombria da cidade em patrimônio cultural vivo.
Alguns artistas fazem música. Outros escrevem livros. Outros abrem cafés. André Hernandez fez algo mais raro. Ele transformou a própria cidade em obra.

Pesquisador da memória obscura de Porto Alegre, músico, escritor, empreendedor cultural e criador do projeto Porto Alegre Mal Assombrada, Hernandez construiu ao longo de mais de uma década um trabalho que hoje se tornou referência quando o assunto é turismo histórico alternativo na capital gaúcha.
Sua trajetória não nasce apenas da arte. Nasce da insistência.
O artista que transformou pesquisa em experiência cultural
Antes de existir qualquer popularização de roteiros sombrios pela cidade, Hernandez já caminhava pelo Centro Histórico pesquisando arquivos, cruzando relatos, conectando memória oral, literatura, jornalismo antigo e narrativas esquecidas.
O que começou como pesquisa pessoal se transformou em experiência cultural guiada, unindo história, performance narrativa e dramaturgia urbana. A proposta nunca foi apenas contar histórias. Foi fazer as pessoas sentirem a cidade.
O Porto Alegre Mal Assombrada nasceu desse impulso. Não como produto turístico tradicional, mas como um projeto autoral conduzido por um artista que também é compositor e contador de histórias.
O roteiro não surgiu de um catálogo turístico. Surgiu de pesquisa, sensibilidade e construção narrativa.
A estrada antes do reconhecimento
Hoje o projeto recebe atenção, público e interesse crescente. Mas o caminho até aqui foi marcado por resistência.
Hernandez enfrentou rejeição inicial por tratar temas considerados delicados. Memória da morte. Crimes históricos. Espiritualidade. Religião. Lendas urbanas. Assuntos que durante muito tempo foram vistos com desconfiança dentro de uma cultura acostumada a narrativas mais convencionais.
Houve conflitos. Questionamentos. Notificações extrajudiciais. Pressões por associar espaços históricos a narrativas sombrias. Momentos em que ele precisou defender sozinho a legitimidade cultural do próprio trabalho.
Hoje esse tipo de roteiro é visto como natural. Mas houve um tempo em que não era.
Esse tempo foi quando ele começou.

O músico que também escreveu sua história na cultura gaúcha
Paralelamente ao trabalho como pesquisador cultural, Hernandez construiu uma trajetória consistente na música como vocalista da banda Lítera, grupo reconhecido dentro da cena autoral gaúcha e premiado ao longo de sua atividade.
A banda conquistou reconhecimento de público, prêmios e indicações importantes, consolidando sua presença dentro da produção independente do Rio Grande do Sul. Sua atuação como compositor sempre dialogou com temas existenciais, psicológicos e simbólicos, algo que também aparece na construção narrativa do Porto Alegre Mal Assombrada.
Em Hernandez, músico e pesquisador são a mesma pessoa.
A estética é a mesma. A busca por significado também.
O Café Mal Assombrado e a ocupação cultural do centro
Essa mesma visão levou à criação do Café Mal Assombrado, um espaço cultural temático instalado junto a histórica Rua do Arvoredo e agora se tornou permissionário do Viaduto Otávio Rocha, um dos marcos arquitetônicos mais importantes da cidade. Hernandez não criou apenas um negócio. Criou um ponto de encontro entre história, arte, gastronomia e identidade urbana. Como sócio permissionário do espaço, ele passou a integrar também o movimento de revitalização cultural do centro histórico.
Seu trabalho dialoga diretamente com a ideia de ocupação cultural dos espaços públicos através da arte.
Gastronomia, cultura e reconhecimento
Sua atuação cultural também alcançou a gastronomia. Representando o Rio Grande do Sul em competições relevantes do setor gastronômico na América Latina, Hernandez levou sua proposta temática também para esse campo, mostrando como narrativa cultural pode se transformar em experiência sensorial completa.
Esse tipo de atuação multidisciplinar revela uma característica central da sua trajetória.
Ele não trabalha apenas com arte. Ele constrói ecossistemas culturais.
O escritor da cidade invisível
Como autor, Hernandez também se dedica a registrar as histórias que pesquisa, organizando material que conecta memória urbana, espiritualidade, história social e percepção simbólica da cidade.
Seu trabalho como escritor reforça o papel de guardião de uma Porto Alegre invisível. Aquela que não aparece nos cartões postais, mas que sobrevive nos relatos, nos arquivos e na imaginação coletiva.
O preço do pioneirismo
Talvez o aspecto menos visível da sua trajetória seja justamente o mais importante.
Ser pioneiro significa fazer antes de existir público. Antes de existir aceitação. Antes de existir mercado. Significa assumir riscos que outros só percebem depois que tudo parece consolidado.
O Porto Alegre Mal Assombrada ajudou a mostrar que existia interesse por esse tipo de narrativa. Ajudou a abrir espaço. Ajudou a formar público. Ajudou a legitimar um segmento cultural.
E como acontece com todo pioneirismo cultural, depois que o caminho é aberto, outros naturalmente começam a percorrê lo.
A única reivindicação constante de Hernandez nunca foi exclusividade.
Sempre foi respeito.

Um nome ligado à memória cultural da cidade
Hoje, o trabalho de André Hernandez representa mais do que um roteiro cultural. Representa uma forma de olhar Porto Alegre.
Uma forma que valoriza a memória. Que enfrenta o esquecimento. Que transforma história em experiência viva.
Sua contribuição está em mostrar que a cidade não é feita apenas de prédios e avenidas. É feita de narrativas. De fantasmas históricos. De lembranças difíceis. De histórias que precisam ser contadas para que a identidade cultural permaneça viva.

Um compromisso que continua
Mais do que um projeto, Porto Alegre Mal Assombrada se tornou um compromisso pessoal com a memória cultural da cidade.
Hernandez continua pesquisando, escrevendo, compondo, guiando e criando. Não apenas como artista, mas como alguém que decidiu dedicar sua trajetória a manter viva uma dimensão pouco explorada da identidade porto alegrense.
Seu trabalho prova uma coisa simples.
Cidades precisam de quem conte suas histórias.
E algumas dessas histórias só sobrevivem porque alguém decidiu não deixar que fossem esquecidas.










