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A beleza não é um privilégio. É um direito…
A falsa equivalência que empobrece o debate sobre arquitetura
Existe uma confusão recorrente quando se discute arquitetura. Muitos fazem uma falsa equivalência entre defender a beleza na arquitetura e ignorar a necessidade de moradias populares e de baixo custo.
São assuntos completamente diferentes.
É evidente que, em muitos momentos da história, foi preciso construir de forma rápida, simples e barata para enfrentar o déficit habitacional. Isso é uma necessidade social. Mas reconhecer essa necessidade não significa transformar a arquitetura utilitária em um ideal estético.
É como dizer que comer restos é melhor do que passar fome. Claro que é. A sobrevivência vem primeiro. Mas ninguém sonha em viver de restos para sempre. Como diz a canção dos Titãs, a gente não quer só comida. Também queremos dignidade, beleza, pertencimento e espaços capazes de emocionar.

Minha crítica não é às moradias populares
Outro ponto que precisa ficar muito claro é que minha crítica não é dirigida às COHABs, aos bairros populares ou às pessoas que vivem neles.
Eu mesmo cresci em bairros assim. Vivi na Vila Leão, no Sarandi, na Zona Norte de Porto Alegre, e conheço essa realidade por experiência própria. Sei o quanto uma moradia digna representa uma conquista. Nunca diminuiria a importância disso.
Mas também sei o quanto faz diferença crescer em um lugar cuja arquitetura conta histórias.
As construções onde vivi eram funcionais. Cumpriam seu papel. Mas dificilmente despertavam um sentimento de pertencimento. Quando caminhamos por um bairro histórico, observamos uma fachada centenária ou uma praça cercada por edifícios que atravessaram gerações, percebemos que existe algo além da função. Existe identidade. Existe memória. Existe cultura.
Essa dimensão também faz parte da qualidade de vida.

O problema não é construir. É destruir.
Quando criticamos a demolição de um edifício histórico, eclético, neoclássico ou vitoriano para dar lugar a uma construção genérica, a discussão não é sobre habitação popular.
Na maioria das vezes estamos falando de imóveis localizados em áreas valorizadas da cidade, substituídos por empreendimentos destinados ao mesmo perfil econômico. Não se trata de derrubar um casarão para construir moradias para quem não tem onde viver.
Na prática, muitas vezes estamos apenas trocando uma obra arquitetônica carregada de significado por outra que atende ao mesmo mercado, mas sem o mesmo valor estético, histórico ou urbano.
É justamente aí que nasce a falsa equivalência. Mistura-se uma discussão sobre patrimônio e memória com uma discussão sobre política habitacional, como se fossem a mesma coisa.
Não são.

Cena do filme Porto Macabro, Hernandez olhando para Catedral da Matriz em Porto Alegre
Patrimônio não é sinônimo de ostentação
Outro equívoco frequente é associar quem aprecia a arquitetura clássica ou historicista ao gosto por mansões extravagantes e construções espalhafatosas.
São coisas completamente distintas.
Minha admiração pela arquitetura histórica nasce da proporção, da simetria, da escala humana, da qualidade dos materiais, do cuidado com os detalhes e da capacidade que certos edifícios possuem de representar a história de uma cidade e talento de trabalhadores e artesões.
Isso não tem absolutamente nenhuma relação com construções excessivamente ornamentadas erguidas apenas para demonstrar riqueza.
Confundir essas duas coisas apenas desvia a discussão.

O modernismo também merece ser questionado
Entendo perfeitamente que muitos arquitetos e engenheiros formados nas últimas décadas sejam apaixonados pelo modernismo. Toda escola arquitetônica possui seus defensores.
O problema surge quando essa preferência transforma qualquer crítica ao modernismo em uma acusação de elitismo, nostalgia ou desconhecimento da realidade social.
Essa postura acaba empobrecendo o debate. Em vez de discutirmos como construir cidades mais bonitas, mais humanas e mais conectadas à sua própria história, passamos a discutir apenas custo, produtividade e eficiência.
Esses fatores são importantes. Mas não podem ser os únicos critérios para definir a cidade onde viveremos pelas próximas gerações.
A cidade que me ensinou a olhar
Talvez seja justamente por isso que esse tema me toca tanto.
Minha admiração pela arquitetura não nasceu em livros nem em salas de aula. Ela nasceu caminhando por Porto Alegre. Nasceu no contraste entre a Zona Norte, onde cresci, e o Centro Histórico, onde aprendi a enxergar a cidade com outros olhos.
Do Sarandi ao Centro Histórico, fui descobrindo que uma cidade também educa.
Ela nos ensina por meio das fachadas, das ruas, das praças e das marcas deixadas por outras gerações. Cada edifício preservado conta uma história que nenhum livro consegue substituir. Cada detalhe arquitetônico nos lembra que pertencemos a uma continuidade, que fazemos parte de algo maior do que o presente.
Foi observando Porto Alegre que compreendi que arquitetura não é apenas engenharia.
Ela é memória, identidade, é arte, e é uma linguagem que molda a forma como percebemos o lugar onde vivemos.
O futuro não precisa apagar o passado
Por isso defendo a preservação do que é belo. Não por saudosismo. Não por rejeição ao novo.

Prédio antigo da Prefeitura de Porto Alegre
Defendo porque acredito que uma cidade perde parte de sua alma toda vez que substitui um edifício carregado de significado por uma construção incapaz de dialogar com sua história.
O futuro não precisa nascer da destruição do passado.
As cidades mais admiradas do mundo mostram exatamente o contrário. Elas evoluem sem abrir mão daquilo que lhes dá identidade.
É esse equilíbrio que espero para Porto Alegre.
Uma cidade capaz de crescer, acolher e inovar sem esquecer a beleza que a tornou única. Porque beleza não é um privilégio. É um direito coletivo.









